A luz do dia dissipa os dissabores em forma de canto em que ouço sem atenção. As janelas murmuram sua presença no meu jardim, rosa das brancas, vermelha de sangue e de vergonha.
— Vergonha de mim?
Talvez não, talvez não seja isso, ou seja. A noite se expande pelo céu enraizando sua escuridão nas nuvens. O véu da noite separa os amantes do tempo e a escuridão os acoberta do espaço.
— Mas, e quem disse que somos amantes?
— E quem disse que não somos?
— Os amantes se olham com os ouvidos, se vêem com a boca e se falam com o olhar.
O beijo dos amantes nada mais é que um selo de uma carta, palavras que não precisam ser ditas, escritas com sorrisos de sentimentos, pensadas com a alma. Palavras de amantes não tem morfologia ou sintaxe, só a semântica dentro da mente deles.
Amantes são o desejo da felicidade consolidado na Terra.
sábado, 31 de janeiro de 2009
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
A boneca - Parte 1
Talvez eu soubesse que eu sempre fui de mentira, uma imagem inventada a força por uma doente que nem sabe soletrar o nome. Saberia, se ela tivesse um nome, mas ela era coisa, e coisas não merecem nomes. Descobri que era de mentira quando meu pai voltou, depois de 15 anos, da mercearia onde disse que foi comprar cigarros. O mesmo homem que eu vi tantas vezes num retrato na casa de vovó, porque os retratos dele em casa haviam sido queimados num ritual Bantô sete dias depois que ele se foi.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Manifesto dos textos de álcool construídos
Para a alma destilada ao vinho, termos da fuga do passado se revelam mau caminho. E do presságio se fazem destinos mal traçados de tinta escorrida. Vermelha tinta, pingada e maltratada. Riscados os papéis que se acumulam, numa trilha de sons assonoros, folhas de areia pétrea que se esvaem na mais fina brisa, e espalham suas palavras que se infiltram no céus e nos mares, viajando nas veredas aos pares.
Tecelagens de frases imperfeitas, que de serem partidas de sentido falta de ser sabido o paradoxo que é o fascínio. Encanto, vislumbre e sabor, mágicas palavras de alto de álcool teor. Física mal-calculada e regrada, de normas e regras quebradas. De rachado servem-se o legado das Memórias e do Rancor.
Partes de um mesmo todo, acasos e imoralidades. Peças de um quebra-cabeças que do encaixe se fazem atrasadas. Anacrônicos pedaços de um cérebro sem coração, fios que se ligam sem qualquer emoção ou sensação, culpados pelo seu próprio homicídio sem causa, sem dolo, sem culpa, sem nada. E das suas cinzas só resta a efêmera lembrança da palavra que um dia foi, e que numa próxima corda vocal pode vir a ser.
Tecelagens de frases imperfeitas, que de serem partidas de sentido falta de ser sabido o paradoxo que é o fascínio. Encanto, vislumbre e sabor, mágicas palavras de alto de álcool teor. Física mal-calculada e regrada, de normas e regras quebradas. De rachado servem-se o legado das Memórias e do Rancor.
Partes de um mesmo todo, acasos e imoralidades. Peças de um quebra-cabeças que do encaixe se fazem atrasadas. Anacrônicos pedaços de um cérebro sem coração, fios que se ligam sem qualquer emoção ou sensação, culpados pelo seu próprio homicídio sem causa, sem dolo, sem culpa, sem nada. E das suas cinzas só resta a efêmera lembrança da palavra que um dia foi, e que numa próxima corda vocal pode vir a ser.
De tanto augúrio que me tem propício
da vetusta arte que me faz arte morta
Um aulete de flauta desencantada
Uma bolha que se estouro numa picada
De tanto que já corri de medo
do nunca que permaneci parado
das pregas da minha venda até
me lembro como se fosse hoje
Talvez porque hoje é ontem
Um dia foi todo o meu passado
E do grito se escolhe o meu presente
Sonhos fazem parte do seu estado
Perniciosos olhos que lanças lançam
De fortuitos auriluzentes cravos de ferro
Seu valor não está em si, está no topo
Topo dos ares sem mel
da vetusta arte que me faz arte morta
Um aulete de flauta desencantada
Uma bolha que se estouro numa picada
De tanto que já corri de medo
do nunca que permaneci parado
das pregas da minha venda até
me lembro como se fosse hoje
Talvez porque hoje é ontem
Um dia foi todo o meu passado
E do grito se escolhe o meu presente
Sonhos fazem parte do seu estado
Perniciosos olhos que lanças lançam
De fortuitos auriluzentes cravos de ferro
Seu valor não está em si, está no topo
Topo dos ares sem mel
Ahasverus
De Ícaro me fiz para poder voar, pena que eu esqueci que minhas asas eram de cera... Importa mesmo é que eu voei, mesmo que o tombo tenha sido maior que a queda. Louco que fui de ter me tacado do penhasco, sem ter pensado primeiro nem pensado depois.
Estão achando que eu morri, não? Se assim fosse quem estaria contando essa história? Só se mata quem tem medo de morrer. Eu tenho medo é de viver.
E tendo medo de viver o que eu não queria eu vivia o que eu queria. Eu acho. Quando não se tem certeza de nada a gente acha até que não é mais gente. E então? Sobrou algo afinal?
Sobrei, na verdade nem isso. O que sobrou foi meu corpo atado ao chão com cordas invisíveis aos olhos, as mesmas cordas que apertavam e sufocavam meu coração. Eu não queria morrer ao final, eu só queria deixar de viver aquilo que eu queria, para viver algo real, e a única coisa real que me sobrou foi a tristeza do meu enterro.
Tristeza? Há-há... meu enterro teria sido triste se alguém tivesse ido para sentir a tristeza, mas nem os corvos apareceram. Nem os corvos. Só vermes, mas isso foi depois do enterro, bem depois.
Nasci no meu salto para o fim. Não tem sentido? Como não? Eu não tinha vida antes disso. Eu era só no mundo. O último homem a deixar sua pegada no mundo. O último a sentir o gosto da terra na boca. Não tenho mãe, nem nunca tive. Fez falta?
Como posso saber se uma mãe faz falta? Só sabendo como é uma mãe e o que ela faz. Eu nem sei... Não sei nem quem eu sou, o meu nome, quanto mais o que é uma mãe. Queria mesmo ter asas de mel para grudar-me nas nuvens e ficar voando o resto da vida, morrer devagar e aproveitar mais. Mas não foi assim, minhas asas eram de cera.
Agora é tarde para arrependimentos.
Estão achando que eu morri, não? Se assim fosse quem estaria contando essa história? Só se mata quem tem medo de morrer. Eu tenho medo é de viver.
E tendo medo de viver o que eu não queria eu vivia o que eu queria. Eu acho. Quando não se tem certeza de nada a gente acha até que não é mais gente. E então? Sobrou algo afinal?
Sobrei, na verdade nem isso. O que sobrou foi meu corpo atado ao chão com cordas invisíveis aos olhos, as mesmas cordas que apertavam e sufocavam meu coração. Eu não queria morrer ao final, eu só queria deixar de viver aquilo que eu queria, para viver algo real, e a única coisa real que me sobrou foi a tristeza do meu enterro.
Tristeza? Há-há... meu enterro teria sido triste se alguém tivesse ido para sentir a tristeza, mas nem os corvos apareceram. Nem os corvos. Só vermes, mas isso foi depois do enterro, bem depois.
Nasci no meu salto para o fim. Não tem sentido? Como não? Eu não tinha vida antes disso. Eu era só no mundo. O último homem a deixar sua pegada no mundo. O último a sentir o gosto da terra na boca. Não tenho mãe, nem nunca tive. Fez falta?
Como posso saber se uma mãe faz falta? Só sabendo como é uma mãe e o que ela faz. Eu nem sei... Não sei nem quem eu sou, o meu nome, quanto mais o que é uma mãe. Queria mesmo ter asas de mel para grudar-me nas nuvens e ficar voando o resto da vida, morrer devagar e aproveitar mais. Mas não foi assim, minhas asas eram de cera.
Agora é tarde para arrependimentos.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Do meu diálogo com a morte
Que a morte me traga consigo no seu bolso
e que no avesso do meu osso
eu descubra que nada da vida foi em vão
E que a trilha se perpetue no caminho
de um andarilho bem mesquinho
que só pensa em juntar pão
E que da silepse que me busco
do contorno que ilustro
da sina que jaz no chão
da fonte que não se mantém
do intruso que vem do além
do pó, das cinzas e do caixão
— Morte, que traz consigo para dar a mim?
— Nada que você deva temer
— Algo que eu deva agradecer?
— Só se isso te machucar.
E do prisma que atinjo
que de vermelho me pinto
Em cristais de sofreguidão
E do aparelho bucal
aparência mais frugal
De conserto de pilão
— Morte, por que ainda não me levou?
— Você não merece morrer. Minha lança é um prêmio só para aqueles que descobrem sentido de viver.
— Mas, Morte, se eu descobrir não vou querer mais morrer.
— Eu sei.
Do poço em que me afundo
de morrer faço meu submundo
E de viver meu cão
e que no avesso do meu osso
eu descubra que nada da vida foi em vão
E que a trilha se perpetue no caminho
de um andarilho bem mesquinho
que só pensa em juntar pão
E que da silepse que me busco
do contorno que ilustro
da sina que jaz no chão
da fonte que não se mantém
do intruso que vem do além
do pó, das cinzas e do caixão
— Morte, que traz consigo para dar a mim?
— Nada que você deva temer
— Algo que eu deva agradecer?
— Só se isso te machucar.
E do prisma que atinjo
que de vermelho me pinto
Em cristais de sofreguidão
E do aparelho bucal
aparência mais frugal
De conserto de pilão
— Morte, por que ainda não me levou?
— Você não merece morrer. Minha lança é um prêmio só para aqueles que descobrem sentido de viver.
— Mas, Morte, se eu descobrir não vou querer mais morrer.
— Eu sei.
Do poço em que me afundo
de morrer faço meu submundo
E de viver meu cão
sábado, 22 de novembro de 2008
Declaração de quem sabe amar
Saber amar não é como andar de bicicleta, que se sabe mesmo sem aprender, que se sabe tanto quanto pensar ou responder a uma questão fácil. Saber amar é aprender a fazer rascunho, desenhar cada sentimento em forma de letra escassa, pintar palavras vãs que descrevem sonhos de pesadelos, derramar fonemas sobre os ouvidos de que é amado, gritar versos que nunca foram pensados. Saber amar é sentir o sangue gelar na artéria e congelar o coração enquanto as células ardem em fogo brando, viciante, hipnotizante e declaratório.
Que o amado sinta o mesmo pulso de quem ama, que entre no mesmo compasso que faz os ponteiros do tempo girarem mais rápido que os sentidos. Que o amado trema perante a morte e tenha medo por quem ama, pois o amante supera esse pavor e sorri para confortá-lo de todos os pecados. A morte é boa para quem ama. eterniza o sentimento num quadro cinza de sangue vermelho em que amado e amante são um só, o beijo.
Que o amado sinta o mesmo pulso de quem ama, que entre no mesmo compasso que faz os ponteiros do tempo girarem mais rápido que os sentidos. Que o amado trema perante a morte e tenha medo por quem ama, pois o amante supera esse pavor e sorri para confortá-lo de todos os pecados. A morte é boa para quem ama. eterniza o sentimento num quadro cinza de sangue vermelho em que amado e amante são um só, o beijo.
Morrendo
O negro manchava a parede amarela de baixo para cima, se infiltrava nos tijolos e maculava os fios de energia que estavam presentes em alumas partes. A luz ficou negra, o sofá ficou negro, o ar ficou negro.
O menino perdeu as cores, sentou no sofá negro, respirava o ar negro. Pela pele via-se os pulmões encherem-se e esvaziarem-se do ar envenenado pela fumaça que corroía tudo a seu redor e coloria tudo que tocava. Aos poucos o menino absorvia a cor que denotava a morte, e assimilava seu destino junto.
Os olhos do garoto aos poucos ganhavam a cor das paredes e do sofá. Era a mesma cor, a mesma sensação, o mesmo fim. O menino nunca mais iria morrer, estava eternizado. A morte perdeu a batalha.
Amém
O menino perdeu as cores, sentou no sofá negro, respirava o ar negro. Pela pele via-se os pulmões encherem-se e esvaziarem-se do ar envenenado pela fumaça que corroía tudo a seu redor e coloria tudo que tocava. Aos poucos o menino absorvia a cor que denotava a morte, e assimilava seu destino junto.
Os olhos do garoto aos poucos ganhavam a cor das paredes e do sofá. Era a mesma cor, a mesma sensação, o mesmo fim. O menino nunca mais iria morrer, estava eternizado. A morte perdeu a batalha.
Amém
Sonhos
Estava presa num lugar que parecia um quarto. Era todo branco e claro. Havia uma cama, um grande espelho que eu desconfio ser uma janela de observação, um relógio de parede antigo e uma saída para ar. O banheiro, fechado durante a madrugada e obsessivamente limpo, tinha duas portas, uma dava para o meu quarto, a outra, para o mundo. Era minha única comunicação e, para meu azar, era também surda e muda.
Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Minha última lembrança foi de bater o carro na madrugada de uma sexta-feira contra um poste. Eu havia bebido com amigos e perdido o controle numa curva. Meus ferimentos estavam bem limpos e toda manhã ao meu lado estava dois comprimidos com a indicação "TOME-ME".
A princípio achei que eu estivesse numa ala nova de um hospital, No entanto, as portas trancadas e um gás sonífero exalado toda meia noite não deixavam qualquer dúvida de que eu me tornei uma cobaia de experimentação. O que me exaure dia após dia são minhas lembranças: o que será que aconteceu com meu noivo? Como será que vai meu chefe? O que aconteceu? Essa última dúvida faz meu cérebro se contorcer filosoficamente afim de responder coerentemente essa questão. Já cheguei a beira da loucura achando que eu teria sido abduzida por óvnis, até mesmo cheguei a pensar que fui sequestrada, mas essas são possibilidades não eram passíveis de veracidade.
O que me chamava a atenção era como eu não tinha nenhum contato com outros seres vivos. Notei nesse tempo em que já estou que há um trabalho enorme para que eu não tenha nenhum tipo de comunicação com nada que se mova e seja vivo. Pelo jeito a sala que estou é vedada para áudio, mesmo com a saída na parede, por onde vêm minhas refeições, não consigo escutar nada. Não tenho nenhum contato visual, e acho que sou monitorada 24 horas por dia, porque, certa madrugada que acordei, o banheiro estava trancado e ouvi barulho de esfregões e água corrente. Gritei por socorro, mas de nada adiantou, ou melhor, só percebi outra dose de gás sonífero sair pela saída de ar.
Só o que me consolava eram meus sonhos. Certa noite, sonhei que estava num jardim colhendo flores, de repente eu era criança de novo e havia um parque de diversões enorme na minha frente.. Fui correndo brincar no gira-gira, mas ele começou a se tornar um furacão e, num instante, eu estava no centro dele. Então uma face apareceu sob o furacão e me disse: CORRA. Eu corri, mas passei a andar em círculos e percebi que um exército de coelhos assassinos me perseguiam com adagas e espadas. Consegui chegar ao meu quarto e lá me tranquei. Corri deitar debaixo do meu cobertor e quando dei por mim estava coberta de aranhas, meu cobertor não passava de uma grande teia. Acordei aterrorizada.
Eu perdi a conta dos dias que eu passava lá. Eles eram tão iguais que não fazia diferença se eram um ou dois, mas pareciam semanas e meses. Simplesmente o tempo parou para mim, não havia mais calor ou frio, não havia mais chuva ou sol. Eu me tornei pálida e meus olhos escuros ficaram ainda mais destacados no meu rosto. Usava sempre uma camisola branca. Mas eu não perdi a vaidade. Um dos meus passatempos é de refazer a camisola até ela parecer uma outra roupa. E meu “guarda-roupa” ia ficando a cada dia mais diversificado.
Reparei que estava ficando gorda, reclamei que queria fazer exercícios. No dia seguinte apareceu uma bicicleta ergonométrica. Estranhei o fato. Queria testar melhor. Então passei a reclamar e pedir de tudo. No dia seguinte lá estava a coisa reclamada anteriormente. Era inacreditável. Certa vez resolvi pedir amigos, então uma pessoa, quando eu acordei, dormia numa cama ao lado. Comecei a chorar. Era inacreditável.
Comecei a perguntar a essa pessoa. Quem era, o que havia acontecido, desde quando estava ali. Andréa era como ela se chamava. Tinha dois filhos, estava lá fazia algum tempo e coincidentemente desejou a mesma coisa que eu no dia anterior. Coincidência? Ela tinha por última memória estar no hospital, num quarto e estar sendo anestesiada para fazer uma cirurgia. Quando ela estava só também apareciam dois comprimidos com a mesma indicação. Depois que nos encontramos passou-se a não aparecer mais qualquer comprimido.
Andréa e eu tivemos a mesma idéia. Queríamos conhecer mais gente. Pedimos. Quando o relógio bateu a meia noite ainda estávamos jogando truco, em vez do gás sonífero, a porta do banheiro deu um estalo. Foi então que eu e Andréa não sabíamos o que fazer. Comecei a sentir desespero, uma espécie de agonia. Alguém iria entrar por aquela porta. Não aguentei. Andréa disse que não, que eu devia ficar longe da porta, mas não consegui. Dentro do banheiro havia dois vestidos de festa, um com meu nome e o outro com o de Andréa. Vestimos e eu fui adiante. A outra porta também estava destrancada e eu a abri.
Havia um salão enorme com um bifê. E muitas portas, incontáveis. Imaginei que todas davam para um banheiro que daria para outros quartos em que estariam outras pessoas jogando truco ou vendo TV a cabo. Comecei a gritar. Pouco a pouco as outras portas foram se abrindo desconfiadas, o salão foi enchendo de pessoas como nós. Algumas choravam, outras gritavam.
Eu comecei a entender o que acontecia. Era um mecanismo de reintegração social, mas todas as pessoas tinham que passar por um ritual antes. Mas porquê? E será que eu estava certa? Já havia me enganado antes, mas algo me dizia que desta vez eu estava certa. Talvez fosse o desespero por uma resposta a tudo aquilo, talvez fosse apenas um sonho, talvez eu ainda estivesse na batida, estava sendo socorrida e minha mente divagada pelo que estaria para acontecer e não pelas minhas lembranças. Essa última hipótese me incomodou, e se eu estivesse morrendo enquanto tudo isso acontecia?
Tudo fazia sentido! Não havia frio ou calor, tudo que eu desejava aparecia. A planta do lugar teria que ser redesenhada milhares de vezes para que toda aquela construção fosse verdadeira. De onde teriam surgidas aquelas pessoas? Era tudo fruto de uma mente cansada e debilitada. Eu mesma era fruto. Será que minhas memórias eram minhas? Quando cheguei nesse ponto parei de questionar. Eu tinha que manter uma certeza, eu sou eu e minhas memórias são minhas.
Lembrei da festa. Eu estava agora no centro sendo olhada por todos. Estava nua... meu vestido havia se dissolvido. As pessoas pareciam não me enxergar nem me escutar. Eu tentava contar a elas o que estava acontecendo mas não conseguia. Comecei a chorar, me dava por vencida. Eu não queria continuar ali. Queria voltar ao meu quarto. Quando cheguei lá outra surpresa.
Meu quarto só tinha novamente a cama, o relógio, a saída de ar e o espelho. Tentei voltar para a festa, talvez eu tivesse errado de quarto, mas todos os quartos eram iguais, todos eram o meu, não importa que porta eu tentasse. Me joguei exaurida na cama, não havia nada que eu pudesse fazer, então, lembrei de Andréa, ela talvez poderia me ouvir. Corri de volta para a festa, mas quando saí já não era mais o salão.
Era um local diferente. Tive medo de sair, senti que ia conseguir as respostas que tanto precisava, acabei voltando para o meu quarto. Fui dormir. Quando acordei estava naquele mesmo local. Era também todo branco e claro, mas não havia mais nenhuma porta. Era como se fosse uma jardim inextensível, mas sem flores, apenas um tapete branco. Da névoa surgiu um homem.
O homem veio até mim e me disse: Carol, sei que você tem muitas dúvidas, mas antes eu preciso te mostrar um coisa que tudo se resolverá. Então tudo começou a girar em volta de nós dois. E num instante estávamos num enterro. Eu parei para olhar as pessoas, estava enjoada, queria vomitar, mas não sabia o porquê. Passei a olhar nos rostos das pessoas. Vi meus familiares, meu noivo, todos de luto e chorando muito. Não senti a falta de ninguém, me perguntava quem teria morrido.
Eu fui abduzida? Perguntei a ele. “Não, Carol, olhe mais atentamente que você terá as respostas que busca. Você sabe o que aconteceu, apenas está negando”. A hipótese era muito louca para ser verdade, eu percebi que eu teria que achar a resposta dentro de mim e sozinha. Cheguei perto do meu noivo e ele pareceu me encarar. Dei um abraço forte nele, mas comecei a escorrer. Percebi que eu não posso tocar ninguém. Por quê? “Você sabe o porquê, Carol. Pare de negar e encare os fatos, veja por quem pranteiam e rezam”.
Cheguei perto do túmulo e quase desmaiei. Comecei a gritar e chorar, enlouquecida, enraivecida. Tudo começou a fazer sentido. Era eu que estava ali, mas não era eu porque eu estava aqui. Eu morri? “Sim, Carol, você morreu”. Então, enquanto as respostas vinham na minha cabeça, todas aquelas pessoas, mortas, eu senti que tudo novamente rodava, pobre Andréa, ela tinha dois filhos, cheguei numa sala de jogos onde haviam várias pessoas, a maioria idosos, uma festa para mortos.
Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Minha última lembrança foi de bater o carro na madrugada de uma sexta-feira contra um poste. Eu havia bebido com amigos e perdido o controle numa curva. Meus ferimentos estavam bem limpos e toda manhã ao meu lado estava dois comprimidos com a indicação "TOME-ME".
A princípio achei que eu estivesse numa ala nova de um hospital, No entanto, as portas trancadas e um gás sonífero exalado toda meia noite não deixavam qualquer dúvida de que eu me tornei uma cobaia de experimentação. O que me exaure dia após dia são minhas lembranças: o que será que aconteceu com meu noivo? Como será que vai meu chefe? O que aconteceu? Essa última dúvida faz meu cérebro se contorcer filosoficamente afim de responder coerentemente essa questão. Já cheguei a beira da loucura achando que eu teria sido abduzida por óvnis, até mesmo cheguei a pensar que fui sequestrada, mas essas são possibilidades não eram passíveis de veracidade.
O que me chamava a atenção era como eu não tinha nenhum contato com outros seres vivos. Notei nesse tempo em que já estou que há um trabalho enorme para que eu não tenha nenhum tipo de comunicação com nada que se mova e seja vivo. Pelo jeito a sala que estou é vedada para áudio, mesmo com a saída na parede, por onde vêm minhas refeições, não consigo escutar nada. Não tenho nenhum contato visual, e acho que sou monitorada 24 horas por dia, porque, certa madrugada que acordei, o banheiro estava trancado e ouvi barulho de esfregões e água corrente. Gritei por socorro, mas de nada adiantou, ou melhor, só percebi outra dose de gás sonífero sair pela saída de ar.
Só o que me consolava eram meus sonhos. Certa noite, sonhei que estava num jardim colhendo flores, de repente eu era criança de novo e havia um parque de diversões enorme na minha frente.. Fui correndo brincar no gira-gira, mas ele começou a se tornar um furacão e, num instante, eu estava no centro dele. Então uma face apareceu sob o furacão e me disse: CORRA. Eu corri, mas passei a andar em círculos e percebi que um exército de coelhos assassinos me perseguiam com adagas e espadas. Consegui chegar ao meu quarto e lá me tranquei. Corri deitar debaixo do meu cobertor e quando dei por mim estava coberta de aranhas, meu cobertor não passava de uma grande teia. Acordei aterrorizada.
Eu perdi a conta dos dias que eu passava lá. Eles eram tão iguais que não fazia diferença se eram um ou dois, mas pareciam semanas e meses. Simplesmente o tempo parou para mim, não havia mais calor ou frio, não havia mais chuva ou sol. Eu me tornei pálida e meus olhos escuros ficaram ainda mais destacados no meu rosto. Usava sempre uma camisola branca. Mas eu não perdi a vaidade. Um dos meus passatempos é de refazer a camisola até ela parecer uma outra roupa. E meu “guarda-roupa” ia ficando a cada dia mais diversificado.
Reparei que estava ficando gorda, reclamei que queria fazer exercícios. No dia seguinte apareceu uma bicicleta ergonométrica. Estranhei o fato. Queria testar melhor. Então passei a reclamar e pedir de tudo. No dia seguinte lá estava a coisa reclamada anteriormente. Era inacreditável. Certa vez resolvi pedir amigos, então uma pessoa, quando eu acordei, dormia numa cama ao lado. Comecei a chorar. Era inacreditável.
Comecei a perguntar a essa pessoa. Quem era, o que havia acontecido, desde quando estava ali. Andréa era como ela se chamava. Tinha dois filhos, estava lá fazia algum tempo e coincidentemente desejou a mesma coisa que eu no dia anterior. Coincidência? Ela tinha por última memória estar no hospital, num quarto e estar sendo anestesiada para fazer uma cirurgia. Quando ela estava só também apareciam dois comprimidos com a mesma indicação. Depois que nos encontramos passou-se a não aparecer mais qualquer comprimido.
Andréa e eu tivemos a mesma idéia. Queríamos conhecer mais gente. Pedimos. Quando o relógio bateu a meia noite ainda estávamos jogando truco, em vez do gás sonífero, a porta do banheiro deu um estalo. Foi então que eu e Andréa não sabíamos o que fazer. Comecei a sentir desespero, uma espécie de agonia. Alguém iria entrar por aquela porta. Não aguentei. Andréa disse que não, que eu devia ficar longe da porta, mas não consegui. Dentro do banheiro havia dois vestidos de festa, um com meu nome e o outro com o de Andréa. Vestimos e eu fui adiante. A outra porta também estava destrancada e eu a abri.
Havia um salão enorme com um bifê. E muitas portas, incontáveis. Imaginei que todas davam para um banheiro que daria para outros quartos em que estariam outras pessoas jogando truco ou vendo TV a cabo. Comecei a gritar. Pouco a pouco as outras portas foram se abrindo desconfiadas, o salão foi enchendo de pessoas como nós. Algumas choravam, outras gritavam.
Eu comecei a entender o que acontecia. Era um mecanismo de reintegração social, mas todas as pessoas tinham que passar por um ritual antes. Mas porquê? E será que eu estava certa? Já havia me enganado antes, mas algo me dizia que desta vez eu estava certa. Talvez fosse o desespero por uma resposta a tudo aquilo, talvez fosse apenas um sonho, talvez eu ainda estivesse na batida, estava sendo socorrida e minha mente divagada pelo que estaria para acontecer e não pelas minhas lembranças. Essa última hipótese me incomodou, e se eu estivesse morrendo enquanto tudo isso acontecia?
Tudo fazia sentido! Não havia frio ou calor, tudo que eu desejava aparecia. A planta do lugar teria que ser redesenhada milhares de vezes para que toda aquela construção fosse verdadeira. De onde teriam surgidas aquelas pessoas? Era tudo fruto de uma mente cansada e debilitada. Eu mesma era fruto. Será que minhas memórias eram minhas? Quando cheguei nesse ponto parei de questionar. Eu tinha que manter uma certeza, eu sou eu e minhas memórias são minhas.
Lembrei da festa. Eu estava agora no centro sendo olhada por todos. Estava nua... meu vestido havia se dissolvido. As pessoas pareciam não me enxergar nem me escutar. Eu tentava contar a elas o que estava acontecendo mas não conseguia. Comecei a chorar, me dava por vencida. Eu não queria continuar ali. Queria voltar ao meu quarto. Quando cheguei lá outra surpresa.
Meu quarto só tinha novamente a cama, o relógio, a saída de ar e o espelho. Tentei voltar para a festa, talvez eu tivesse errado de quarto, mas todos os quartos eram iguais, todos eram o meu, não importa que porta eu tentasse. Me joguei exaurida na cama, não havia nada que eu pudesse fazer, então, lembrei de Andréa, ela talvez poderia me ouvir. Corri de volta para a festa, mas quando saí já não era mais o salão.
Era um local diferente. Tive medo de sair, senti que ia conseguir as respostas que tanto precisava, acabei voltando para o meu quarto. Fui dormir. Quando acordei estava naquele mesmo local. Era também todo branco e claro, mas não havia mais nenhuma porta. Era como se fosse uma jardim inextensível, mas sem flores, apenas um tapete branco. Da névoa surgiu um homem.
O homem veio até mim e me disse: Carol, sei que você tem muitas dúvidas, mas antes eu preciso te mostrar um coisa que tudo se resolverá. Então tudo começou a girar em volta de nós dois. E num instante estávamos num enterro. Eu parei para olhar as pessoas, estava enjoada, queria vomitar, mas não sabia o porquê. Passei a olhar nos rostos das pessoas. Vi meus familiares, meu noivo, todos de luto e chorando muito. Não senti a falta de ninguém, me perguntava quem teria morrido.
Eu fui abduzida? Perguntei a ele. “Não, Carol, olhe mais atentamente que você terá as respostas que busca. Você sabe o que aconteceu, apenas está negando”. A hipótese era muito louca para ser verdade, eu percebi que eu teria que achar a resposta dentro de mim e sozinha. Cheguei perto do meu noivo e ele pareceu me encarar. Dei um abraço forte nele, mas comecei a escorrer. Percebi que eu não posso tocar ninguém. Por quê? “Você sabe o porquê, Carol. Pare de negar e encare os fatos, veja por quem pranteiam e rezam”.
Cheguei perto do túmulo e quase desmaiei. Comecei a gritar e chorar, enlouquecida, enraivecida. Tudo começou a fazer sentido. Era eu que estava ali, mas não era eu porque eu estava aqui. Eu morri? “Sim, Carol, você morreu”. Então, enquanto as respostas vinham na minha cabeça, todas aquelas pessoas, mortas, eu senti que tudo novamente rodava, pobre Andréa, ela tinha dois filhos, cheguei numa sala de jogos onde haviam várias pessoas, a maioria idosos, uma festa para mortos.
Palavras de um escritor
Os sonhos não devem ser sonhados, são apenas letras que servem de apoio para a sanidade não deixar de ser a cura. E que esta seja a cura para nenhum dos males, porque os males são o que fazem as pessoas saberem que não morreram, que seja a cura do sorriso e das lágrimas, para se superar as barreiras intransponíveis e as prisões inescapáveis.
E os pesadelos que se tornaram realidade são apenas avisos da morte para virem a ser abortos de alegrias e da vida. A vida é bela por ser dura e cruel, pois não há nada mais belo que o homem sem remorsos e sem cura.
E que toda palavra que o escritor decifrar se volte contra ele e o asfixie, que o devore piedosamente pedindo perdão por ter sido escrita e por ter sido eleita a melhor de todas. Essa palavra é quente e viva, tem personalidade e sentimentos, e tudo que ela vive e sente é a amargura de existir, de ter sido escrita.
E cada chama reversa clama para ser apagada com ácool do sangue translúcido que corre até o cérebro e destila seu amor em forma de rancor contra quem não foi amado
Que todo escritor saiba que palavras são rancores vermelhos que refletem a personalidade fonética da íris. E elas matam de fora para dentro, como o ácido que se infiltra e corrói os poros. Palavras são apenas sonhos decifrados.
E os pesadelos que se tornaram realidade são apenas avisos da morte para virem a ser abortos de alegrias e da vida. A vida é bela por ser dura e cruel, pois não há nada mais belo que o homem sem remorsos e sem cura.
E que toda palavra que o escritor decifrar se volte contra ele e o asfixie, que o devore piedosamente pedindo perdão por ter sido escrita e por ter sido eleita a melhor de todas. Essa palavra é quente e viva, tem personalidade e sentimentos, e tudo que ela vive e sente é a amargura de existir, de ter sido escrita.
E cada chama reversa clama para ser apagada com ácool do sangue translúcido que corre até o cérebro e destila seu amor em forma de rancor contra quem não foi amado
Que todo escritor saiba que palavras são rancores vermelhos que refletem a personalidade fonética da íris. E elas matam de fora para dentro, como o ácido que se infiltra e corrói os poros. Palavras são apenas sonhos decifrados.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Humanidade em mim
Às vezes parece que a ausência não é o suficiente, que só o que somos não faz nada durar, que nossas atitudes não se somam para um bem maior, se deturpam e nos ferem, fazem-nos sangrar até a morte, não do corpo, mas da alma. É como a desesperança de não se ter um filho, ou de perdê-lo para a morte. Não é diferente da minha personalidade, nem da sua.
Talvez eu seja só um espírito triste em busca de algo bom para outrem. Mas esse não seria o meu, seria o dele. E talvez esse dia não chegue, apenas se parta para um infinito e que me engula com o desgosto da sina amarga que se faz em pífios segundos. E quando esse dia chegar eu já não serei eu mesma, serei outra que não partirá com a dor que sinto hoje, mas com a dor prolongada de amanhã.
Só então quando chegar a lugar nenhum perceberei que nunca andei para frente, e tão somente para o lado, que andei descrevendo apenas um círculo e que nunca evoluí. Eu só quis um beijo, mas mereci uma punhalada no peito, não só a mereci, mas a tive, a culpa foi minha por querer tamanha bondade de outrem. Mas como poderia não querer a bondade? Sempre é o que esperamos de qualquer um que cruze nosso caminho, mas raramente é o temos, naturalmente temos quase sempre o que merecemos: a humilhação íntima.
E quem sabe alguém me olhe diferente e perceba que sou apenas igual às outras, que não sou única nem diferente, e que por isso não há razão para me tratar assim. Que, quem sabe, eu só mereça uma punhalada a mais para aprender mais e aí então me distinguir, nem pela ferida, mas pela paciência. Que o ser humano é assim, só sabe olhar com a visão de caçador, e esquece que na maioria do tempo é caça.
Talvez eu seja só um espírito triste em busca de algo bom para outrem. Mas esse não seria o meu, seria o dele. E talvez esse dia não chegue, apenas se parta para um infinito e que me engula com o desgosto da sina amarga que se faz em pífios segundos. E quando esse dia chegar eu já não serei eu mesma, serei outra que não partirá com a dor que sinto hoje, mas com a dor prolongada de amanhã.
Só então quando chegar a lugar nenhum perceberei que nunca andei para frente, e tão somente para o lado, que andei descrevendo apenas um círculo e que nunca evoluí. Eu só quis um beijo, mas mereci uma punhalada no peito, não só a mereci, mas a tive, a culpa foi minha por querer tamanha bondade de outrem. Mas como poderia não querer a bondade? Sempre é o que esperamos de qualquer um que cruze nosso caminho, mas raramente é o temos, naturalmente temos quase sempre o que merecemos: a humilhação íntima.
E quem sabe alguém me olhe diferente e perceba que sou apenas igual às outras, que não sou única nem diferente, e que por isso não há razão para me tratar assim. Que, quem sabe, eu só mereça uma punhalada a mais para aprender mais e aí então me distinguir, nem pela ferida, mas pela paciência. Que o ser humano é assim, só sabe olhar com a visão de caçador, e esquece que na maioria do tempo é caça.
domingo, 19 de outubro de 2008
Solidão
Descobri o que tanto me angustia e aos poucos me mata, é o fato da realidade sobrepor-se a minha fantasia de estar com alguém. A verdade é que eu, como qualquer ser humano, sou só e estou só.
Apenas um detalhe me difere da maioria humana; consciência. Eu sei que sou só, e me entristeço. Não que minha tristeza me traga piedade, ou faz-me melhorar, no entanto, ao mesmo tempo em que angustia, conforta-me com sua segurança, porque quando temos a felicidade, tememos perdê-la; já, quando temos apenas a nós e nossa tristeza, nada tememos porque já havíamos perdido tudo.
“Chega de saudade”, cantou João Gilberto, entretanto, saudade de quem se somos sós? Da ilusão. O ser humano é iludido na crença da solidão inexistente, ou seja, ele crê estar vinculado uns aos outros. É por isso que todos temem a morte. A morte é o choque da realidade, a morte é solitária. Não é triste apenas para quem já conhecia a solidão, mas para aqueles que a negavam, sim. Estes temem a morte porque só se morre sozinho.
Certa vez um cachorro foi atropelado na frente de casa. Fiquei olhando-o agonizar. O cão esganiçava, contorcia-se, queria se levantar e ir para algum lugar seguro. Da boca o sangue fluía para o asfalto. Não demorou muito que outro carro o matasse. Estava no meio da estrada, já era de madrugada. O motorista descuidado passou por cima de sua cabeça, quebrou o pescoço. E assim foi-se um cão.
Talvez o cão tivesse consciência de que era seu fim, talvez imaginasse um céu cheio de carteiros para perseguir. Talvez, não. Só sei que o cão morreu sozinho. Como qualquer um em seu lugar. Descobri às duras penas que não se pode trocar de lugar com quem está morrendo, nem sequer podemos fazer companhia. Enfim, solidão é só o começo da vida, porque só se percebe que está vivendo quando descobre que não se pode viver por outrem.
Apenas um detalhe me difere da maioria humana; consciência. Eu sei que sou só, e me entristeço. Não que minha tristeza me traga piedade, ou faz-me melhorar, no entanto, ao mesmo tempo em que angustia, conforta-me com sua segurança, porque quando temos a felicidade, tememos perdê-la; já, quando temos apenas a nós e nossa tristeza, nada tememos porque já havíamos perdido tudo.
“Chega de saudade”, cantou João Gilberto, entretanto, saudade de quem se somos sós? Da ilusão. O ser humano é iludido na crença da solidão inexistente, ou seja, ele crê estar vinculado uns aos outros. É por isso que todos temem a morte. A morte é o choque da realidade, a morte é solitária. Não é triste apenas para quem já conhecia a solidão, mas para aqueles que a negavam, sim. Estes temem a morte porque só se morre sozinho.
Certa vez um cachorro foi atropelado na frente de casa. Fiquei olhando-o agonizar. O cão esganiçava, contorcia-se, queria se levantar e ir para algum lugar seguro. Da boca o sangue fluía para o asfalto. Não demorou muito que outro carro o matasse. Estava no meio da estrada, já era de madrugada. O motorista descuidado passou por cima de sua cabeça, quebrou o pescoço. E assim foi-se um cão.
Talvez o cão tivesse consciência de que era seu fim, talvez imaginasse um céu cheio de carteiros para perseguir. Talvez, não. Só sei que o cão morreu sozinho. Como qualquer um em seu lugar. Descobri às duras penas que não se pode trocar de lugar com quem está morrendo, nem sequer podemos fazer companhia. Enfim, solidão é só o começo da vida, porque só se percebe que está vivendo quando descobre que não se pode viver por outrem.
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