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quarta-feira, 23 de abril de 2014

A garrafa

Meu coração foi engarrafado, socado dentro de um vidro de cerveja. Meu coração virou conteúdo de um continente sujo e alcoolizado. Preso pelo recipiente, meu coração dá tímidas batidas pedindo indulto, meu coração dá tímidos gritos pedindo socorro, meu coração dá tímidas lágrimas prendendo o choro. Minha garrafa de cerveja preta não agradou.


Meu coração foi adormentado em meio ao resto preto da garrafa, mas depois ele acordará e se conformará. E meu coração virou drink!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A língua do P

Meu peito apertado espreme minhas artérias.
E minhas artérias exprimem a dor que corre em meu sangue.
Pura expressão da confusão de pensamentos que me subtraem.
E diminuída de sanidade, reduzida ao fardo, sofro.
Sofrimento espremido, exprimido, extirpado e subtraído.

Se da transfusão do sangue que doei nada restou,
Se da minha pressão arterial multiplicam-se as tensões
Se da minha testa pesam todos
Se do caixote em que caibo sufocada não me abrem.

Por hoje sem alívio,

Apenas o sono dos injustos. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Cri(ativa)


Minha cria deriva de teu nome, minha criação é fruto do teu toque, tenho minha criatividade para te tecer.  Meu amor é uma malha que aquece o ar dos meus pulmões, para te enviar meu calor por meio das nossas bocas. Minha língua faz túnel até a tua, e te eleva ao meu céu.

Eu sou vestida pelo teu corpo,
emaranhado de pelos
e apelos.

Meus cabelos se misturam ao ar. E por meio de minhas provocações, minas insinuações, eu minero teu coração, lavro meu arquipélago de sistema cardíaco e lavo teus pés. Lavo tuas mãos em meu elixir da vida. Lavo teus pés. Lavo teu rosto com minha saliva. Ó meu amor, já era meu tesouro antes mesmo que te cavasse da terra, antes mesmo que soubesse.

E toda sonhadora, eu empino uma pipa, eu empino meus sonhos, eu empino teu rosto... e beijo teu pescoço. E assim, colados em suor, bailamos pelo salão, permito-me seguir teus passos, e me é permitido apoiar teus braços em meus ombros, e nos permitimos amar. Minha mente ativa, cria sonhos e perspectivas, imaginação e transpiração.

Crio ativamente
Sonhos e falas
Minha mente
Ativa, fálica e
Minha ação
Se imaginam contigo sempre
E te querem, e te tateiam e...

E de ação imaginária, e de sonhos criados, e de desejos expostos; eu te elejo minha inspiração.



quinta-feira, 20 de março de 2014

Confissões

Eu confesso minha culpa,
Em sempre achar capivaras expiatórias,
Confesso minha falta de jeito, a da minha visão...
Eu só vejo bodes e cabras,
Não enxergo tuas capivaras.

Confesso ao meu espelho as lágrimas que não permito que escorram em meu rosto, a ilusão que não me é permitida guardar em meu peito. Minhas divagações criaram asas para fugir pela minha janela e criar um sonho paralelo, em razão da ausência da própria realidade. Confesso meu reflexo imperfeito e repelente.

Eu confesso meu nascimento
Meu crescimento

Meu não desenvolvimento
Como imaginado e querido.

Confesso loucamente minha lucidez enquanto que deságuo em meus lençóis, minha hidratação não é reposta com groselhas ou refrigerantes. Minha hidratação não se repõe.

Eu seco,
E ressequida, sou esmigalhada como as folhas secas.
E meus restos são levados ao vento

E assim fico varrida num canto do quintal. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Arrivederci

A tristeza me pegou de jeito hoje. Sinto que aquele desenho de ossos encapuzados criou vida e bate na porta das pessoas, anunciando a brevidade de nossa consciência. E a perpetuidade das minhas memórias... Será que vou sempre me lembrar de ti? 

Eu não tenho lágrimas suficientes para salgar tua carne, e me juntarei aos teus outros amigos no teu processo de mumificação, e poetaremos teus feitos e não-feitos (como se feitos tivessem sido), e te manteremos vivo como a musa de Camões.

Ah, meu amigo. As perdas se acumulam como um punhado de pedras nos meus bolsos enquanto tento atravessar o rio. E a cada braçada me sinto mais pesada e preciso de mais força para seguir.

A dor me é infinita, e hoje me resigno a senti-la vibrante em minhas artérias, perfurando  meus órgãos e cegando meus olhos. Minha visão cega tromba nos mesmos móveis que sempre estiveram no mesmo lugar, e sinto novamente a (in)segurança de que está tudo igual.


As estrelas não me consolam, nem a lua, nem o céu. Nem mesmo o céu. Nos encontraremos um dia, meu caro. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O meu hoje

E o meu coração encontra-se amarrado e eriçado pelas roldanas, as mesmas que prendem meus pés no chão, quem prendem minha boca com agulhas. Meus movimentos e batimentos cardíacos delineados por um desenhista antiquado e doloroso fazem dos meus dias grandes batalhas, e das minhas noites enormes vitórias. Eu venci? O não perder já é vencer? Talvez nos caiba por hoje fazer uma exceção, e nos considerar vencedores pelo viver.

Sim, caro leitor, é um vencedor por viver, afinal a sobrevida já nos é empurrada com força, a cada desespero por mais um suspiro oxigenado, a cada ânsia por mais uma gota açucarada do café que nos mantém acordados, a cada parafuso devidamente apertado nas nossas fábricas de pensamentos. Sim, caro leitor, sobrevivemos dia após dia agonizando em noites mal dormidas pelas frustrações a que somos constantemente submetidos.

Hoje minha pele reluz a acidez da minha língua, e a impiedade de minha mente, sufocando a compaixão da minha alma pela tua. Hoje não é dia para padecer, caro leitor, hoje é dia para comemorar. Comemore comigo, ou com teu vizinho. Hoje minhas mãos engasgam tua cerveja, hoje meus dedos estrangulam teus pesadelos, hoje esmigalho teu pão sem manteiga para nada oferecer em troca.

Hoje eu pinto de branco as paredes do meu quarto e aguardo a combinação de sombras e luzes do sol para preenchê-la com a cor da minha esperança que resta intocada ainda, creio eu que as paredes do meu quarto se movem a seu bel prazer, aumentando e diminuindo meu espaço conforme acham necessário, e não conforme meu conforto.  E assim, espremida por todos os cantos, a minha voz se liberta e permeia os ventos do mundo.

E hoje, minha voz flutuando pelos sete ventos dos mares, meus dedos apertando a garganta do meu superego, me sinto vencida pela vida... E hoje, apesar das agulhas que me costuram os lábios, saboreio o gosto da vitória e finalmente durmo abandonada pelas frustrações.


Bons sonhos, caro leitor. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Do tempo

O tempo me esquece e sinto minhas unhas irremediavelmente transformarem-se em garras. Estas adentram minha carne e me despedaçam em três. 

A tríade Aristotélica, fruto da passagem do tempo pelas minhas mãos, envelhecendo-as, engradecendo o tato, criando habilidades cirúrgicas para o conserto de minhas juntas, e para o zelo com meus calos. 

E o tempo cruel arrasta-se em triângulos desenhando minhas expressões faciais e pintando as cores do meu esmalte, e bordando as rugas dos meus risos. 

Aplica-se em minha alma a teoria da relatividade, mitigando meus dogmas e meus preconceitos, acalmando minhas preces e extirpando minhas dúvidas. A fé devorA meus encantos e meus defeitos, e a mesma fé rasga a sola dos meus pés, colocando-me em eterna provação. 

O tempo é colaborador da sapiência, e cicatrizante das feridas. Aerossol de tempus verbum.


E ressuscito a deusa que me habita o corpo, reanimando a própria com sua forca, fé e esperança. E minha deusa esquece o tempo e faz deste teu servo e teu escudeiro. E minha deusa escreve com meu sangue e deságua minha mente no papel. 

Minha mente iludida e derretida entrega a cera quente - que são minhas opiniões - aos leitores, arrancando seus cabelos sem sombra de compaixão. E minha mente, palhaça com palavras, prega pecas na deusa que habita meu corpo, e com a alma, refaz minha fé.  

E o tripé que me sustenta segue manco, compassado pelo tempo que tatua a minha pele de forma invisível, e concretiza as pegadas na calçada não famosa da minha vida. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Um poema

Meu coração anda assim,
compassado como um relógio.
E assim ele anda, segundo por segundo,
Passando de hora em hora
Até chegar no dia seguinte.
E começar a passar pelos mesmos números
os mesmos ponteiros
É a repetição
que marcou meu coração.

Meu coração anda assim,
leve como um balão.
E assim ele anda,
Levado pelo vento
E pousando de chão em chão.
E começa a ver as florestas e montanhas,
Paisagens nunca repetidas,
E sempre de algo novo a desviar e observar.

Meu coração anda assim,
Esperto como um gato.
Pisando de leve com o sapato,
Desassossegado a certo instante.
Mas isso não é o mais gritante,
O é o fato dele não ser mais meu.
Agora que ele e dono de seu nariz faz só o que quer.





domingo, 24 de novembro de 2013

A fuga

E meu coração resolveu escapar hoje do meu peito, pelo que reservo seu lugar para quando retornar. Ah, meu coração de personalidade própria, batimentos próprios, e que se apropriou até dos meus pensamentos.

E meu coração criou asas para voar seus sonhos, sibilando enquanto passa por colinas, e terraços. Meu coração com asas e rodas seguindo pelo túnel sem volta.

Meu coração me pega pelas mãos, e me conduz pelos entornos de tal fortaleza, e me puxa cercando as muralhas, e assim sigo delineando teu rosto e suas feições.

E meu coração fotografa o meu sorriso traiçoeiro, que te entrega completamente meus sentimentos, que te entrega completamente minhas intenções, que te entrega completamente minha alma.

E a minha alma, costurada em meu coração, é leve quando meu coração se entrega ao teu toque, e a do teu coração. Minha alma levita, ascende aos céus e às nuvens, somente por você.

E o meu coração retorna do túnel para seguir seu destino, e draga a minha alma, encoleirada, de volta. E cá estou eu, corpo com alma e coração novamente, para te amar.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Observatório


Ah, suas decepções constantes não me preocupam mais, apenas me entristecem. Não consigo mais aceitar tal responsabilidade, não posso mais ser a culpada e a condenada por suas frustrações, por tudo que não se concretizou.

Ah, o peso de tuas escolhas não me pertencem, o quilo das tuas reações não estão ao alcance das minhas emoções e nada posso fazer. Apenas percebo os cacos de vidro adentrando a carne de meus pés, já assolados pelo metal aquecido que me impuseste como chão. Não há nada a ser feito além de esperar a tua chama perder o fôlego e se cansar de lamber meus pulsos.

Não jogue mais em minhas mãos os atos que não cometi, não sou reato de minhas reações, ante a teus estímulos injustos. Não desejo para mim as alças da tua bagagem de privações que não causei, dos sonhos que não tive, das mazelas que não trouxe.

Ó crucifixo pesado que se arrasta em meus ombros, Ó pena inchada cravada entre meus dedos, Ó coração inflamado e desinchado pelo teu desamor. ó coleira desgraçada que me prende neste cercado, E me vejo obrigada a encarnar minha sentença condenatória irrecorrível, cujo lastro probatório não participei. pago com desprazer tal indenização.

E se de ti não faço companhia,
E se de mim não há escapatória
Canto a minha translucidez ,

e transformo tua ira em solidão.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Meu coração

As saudades reverberam meus sentidos, meu tato busca tua pele, minha audição, tua voz. E quanto tempo ainda minha imaginação, miscigenada com nossas memórias, hão de te fazer as vezes, hão de ter que segurar meu coração, hão de absorver as lágrimas que insistem em aprender a voar?

As saudades causam terremotos em meus cílios, os quais buscam no horizonte algum caminho para o céu. Meus olhos abalroados pela vista infinita se fixam no chão, buscando as migalhas de pão deixadas na última caminhada.

As saudades fazem solução da minha garganta, dissolvendo minha respiração e retardando o bombeamento de sangue para minhas mãos... Estas se encontram letárgicas, aguardando a vivacidade de outrora para quando se encontrarem nas suas costas.

As saudades delineiam o contorno do meu rosto, cometendo graves expressões e apontando formas e atos novos para meu semblante. Este sorri pelas lembranças e resta nostálgico pelo presente.

As saudades me chamam e brincam com meus sentimentos, e transformam tudo em desejo; O desejo de te ver de novo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Pele

A minha pele descama e revela o que já não admito mais sentir.
A minha pele dilui seu encanto e te chama, aqui.

A minha pele sardenta, sangrenta e santa,
Em chamas.
A minha pele alivia a dor de ser de carne e choro.
A minha pele me esconde da vontade do mundo, e da tua.
A minha pele se fez de casaco, para te agasalhar nos dias frios.
E se fez de bolsa, guardando o meu coração pra você levar.
O toque, a tecla, o tique e a mão atada servem minha pele.

Na tentativa de te tentar...