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segunda-feira, 6 de março de 2017

Apontando

Há muito tempo construí uma ponte que ligaria meu coração ao teu, para juntos bombear as esperanças de um para o outro, e de outro para um.

Ponte estaiada, mas que nos liga de uma forma pouco convencional mas muito sincera. O oceano de dúvidas, medos e inseguranças que nos sustenta está turvo hoje. Misturado com a borra de café, é possível adivinhar o futuro.

Como arquiteta, ela aponta os lápis e desenha a construção em quadrinhos, prancha a prancha, parafusando as ideias umas nas outras. Como artista, ela criou uma história suave, sem tantos balanços, e um punhado de cachorros para dar estabilidade. Como desenhista, ela escorre água pelas bordas, manchando as cores, mesclando-as com nossas emoções. Como inventora, ela já planejou tudo, toda uma vida, tatuou nossas mãos entrelaçadas.


Os cabelos amarrados na lateral indicam a meninice com que me imagina daqui a quinze anos, sentado numa mesa redonda com um suco natural de melancia, estudando para o vestibular.

domingo, 25 de setembro de 2016

Sufocamento

Hoje não preciso me alimentar, nada pode preencher esta vazio que me assombra. Vivo novamente o fantasma, meu coração treme ao constatar que estou novamente a adoecer das frustrações mal resolvidas, dos mimos que não recebo, das expectativas quebradas pela vida que se impõe sólida em minhas mãos.

Amargo meus sabores e meus gostos revoltados, que não fazem jus à minha vontade, e não se importam com minha desesperança. Reluto na minha entrega, recrio meus monstros, repenso meus valores e refaço meu escudo. Disfarço o quanto consigo para esconder a falta de coragem de encarar o espelho, espero julgamento brando por minha covardia e anseio solitária o meu destino.

Minha alma espremida entre minhas lágrimas e angústias questiona o tempo todo minhas escolhas. Por hora, ergo a cabeça e caminho, aguardando as novas pedras e curvas da estrada.  Minhas ansiedades e ânsias se misturam, confundem meu estômago e meus sentimentos, não percebo os limites entre minha mente e meu corpo.

Os risos espaçaram, assim como as batidas do coração. Aguardo o sangue voltar a ser bombeado aos pulmões e respirar o ar pacificamente. Aguardo as letras voltarem a meus lábios. Aguardo os dedos retornarem as minhas mãos. Aguardo o tempo passar e me levar ainda melhor.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Abandono

Estou abandonada pelo meu próprio Ego, fui expulsa de minhas vontades e mecanizada para trabalhar funcionalmente, apresentando resultados satisfatórios. Metas vencidas e não pagas, metas cumpridas e não trabalhadas, vivo desfazendo metas e as vivenciando.

Estou abandonada dos meus sonhos, todos eles quando arranhados foram deformados, tornando-se experiências cansativas e insistentes. As ranhuras das minhas modelagens dão à argila uma feição sofrida, sangrada. Emolduro minha arte, pesquiso a soma de intenções alheias, confronto a solidão e decido realizar a exposição do meu interior aqui: sem galeria, sem moça bonita recebendo convidados, aliás, sem convidados.


Exponho toda a minha dor, assalto minhas emoções e cá estou, solitária, verminosa, e carente. Visto uma jaqueta de coragem, tomo fôlego e retomo a caminhada, pé ante pé, silenciosa e vagarosamente divago minha trilha de tijolos amarelos, em busca do Mágico de Oz.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A perda


As minhas saudades são reverberantes, e as sinto até os ossos, fazendo as costelas oprimirem a respiração. Minhas saudades fazem meus dedos tremerem, contorcerem o ar enquanto massageiam a traqueia desoxigenada. Sintonizo as lembranças e as lágrimas brotam incontroláveis; salmouras, e dessecam minhas lembranças, conservando-as em minha alma.

O meu amor duradouro remanesce à sua perda; meu amor é bombeado conjuntamente no ritmo dos batimentos. O meu amor resguardado é salteado, refogado e refogueia em minhas mãos, enquanto tento lhe alcançar. O meu convalescente seca o sangue condoído de minhas veias, escorrido do coração.


A minha perda é insondável, imensurável e sem prazo. A minha perda me perdeu no tempo, nas lembranças, nas lágrimas e nas saudades. A minha perda é silenciosa, respirar tornou-se dolorido hoje, e o sono um refúgio para lhe encontrar. A minha perda é irretratável, e somente a perda de mim poderá solucionar. A minha perda foi a solução incabivel, e me deixou inconsolável. Eu lhe perdi, mas amei teu amor.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Suco de mexerica

A mexerica é uma fruta democrática, divide-se entre tantos palatos e oferece seu suco a várias sedes. Gomos de mexericos democráticos espalhando-se nas bocas de todos, espalhando acidez e cítricos dentre os democráticos mexeriqueiros. Democratas mexem suas línguas em busca de vitaminas para seus discursos, enchem sua bocas de insumos adocicados e preenchem as cabeças dos feirantes.

A expectativa assassina da esperança se instala nas gargantas dos consumidores. E aos poucos a espera se torna costume, e o costume se torna comum. E assim, todos esperançamos sem espera, e sem alcance. E todos oramos e rezamos. E todos regurgitamos pelos canudos o que bebemos do copo para a mente. E todos sentamos enquanto descascamos mexericas. E todos cuspimos fora as sementes, para que não brotem.

A sede não é de coca-cola, mas de vitaminas C, de sabor ácido, de angústias novas, de frutose e lágrimas. A sede não é saciada, nem aliviada pelo suco de mexerica, a sede será eterna, assim como a espera de todos pela democracia.


A mexerica é uma fruta democrática, barata, vendida em bacias nas feiras. Chega em todas as casas, por meio da televisão e das revistas. A mexerica é fruta pop, fruta top, satisfaz a realidade brasileira. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Hoje é dia de Maria

Hoje meu dia é feito de poesia, quase um drama shakesperiano, com direitos a grandes tragédias e desilusões, mas sem o costumeiro veneno que impregnou a pena do mestre. Minha vida ganhou balanço de conquistas e frustrações, e por hora atravessarei nova fase, cansei dos antigos obstáculos e dos mesmos monstros.

E minha poesia lírica ganhou trilha sonora, um violino belíssimo que me acompanha desde o berço cria maravilhosas composições conforme inauguro os dias de cada dia. E respiro de hora em hora acompanhando todas as mudanças de estações.

Hoje meu dia foi regado a café, com pouco açúcar. Meu café arábico e nacional, que desperta a insônia em meus olhos, e permite a minha mente desfocar. Meus cílios não se cruzam a semanas, e meus sonhos se perderam no vão do travesseiro e não me permito a mais esperanças que as que já acumulei. Meus planos traçados são a causa de minha impaciência e meu conforto.

Agora meu dia está ensolarado, e chega a ser causticamente. Resseco aos poucos expelindo a água na minha respiração enquanto o calor me consome as narinas secas. Agora minhas mãos estão secas, descascando a pele ofendida e rachando a cutícula, deixo meus dedos abrirem e sangrarem, choram meu sangue pelos pecados em que toquei.

E minha poesia lírica ganhou pintura em óleo, pinto a dedo a tela mental em que imagino meu futuro, pinto a dedo a tela de tecido frágil em que me imagino tomando chá de hortelã, admirando a lua pela janela.

Assim meu dia vai passando, vai andando com as próprias pernas até me deixar para trás, atrás do meu tempo. Estou atrasada, extravasada nas minhas emoções e caretas. Estou cansada de descorrer e discorrer mentalmente os lances do cotidiano.


Confesso minhas lamúrias, e aguardo pacientemente o amanhã. 

domingo, 27 de março de 2016

As ilusões




Compro ilusões, todos os dias e a qualquer hora, afinal a vida empiricamente sem as ilusões é mera sobrevivência. Minhas ilusões são necessárias a alegria, tristeza e demais emoções. Meu coração iludido é constrito aos apegos que a ida proporcionou. Meu coração é uma caixa de pandora, em que guardo todos os doces e algumas ilusões, as importantes. Trata-se de uma verdadeiro porta-joias, e um porta-desilusões, que guarda minhas memórias mais desgostosas como pedras sem preciosidade, por mero colecionismo.

Compro novas ilusões, novas oportunidades de apegos e desapegos, novas oportunidades de frustrações e lamentações, novas oportunidades de expressar a minha ansiedade.

Vivo e sobrevivo de meu status e meu orgulho, alimento minhas vaidades, e sigo conquistando mais e mais aborrecimentos. Meu coração aborrecido e condoído distorce a realidade, apegado a migalhas de sonhos, migalhas de fantasias e migalhas de pães.

Vivo velhas ilusões, como jornais passados acumulados num canto da sala. Acredito em tais valores e percorro os mesmos tijolos, realocando-os um a um no caminho que traço. Vivo velhas chantagens, permanecendo acuada pelos medos transformados em medos, Vivo velhas memórias, recordo o passado de meus antepassados para abrilhantar um futuro incerto.

Meu coração é um porta-desilusões de memórias ruins, memórias velhas. Meu coração não esqueceu. Meu coração se iludiu de novo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Enlace

Retiro das minhas mãos a sua responsabilidade e solto-a no ar. Respiro a liberdade de minhas escolhas, ausente de culpa e sanções. Retiro de meus olhos as emoções, são demasiadamente perigosas.

Respondo ao que me convém, guardando minhas opiniões no bolso, expondo minhas opiniões no modo como desejam ouvi-las, sonhando com minhas opiniões sem distorções, interrupções ou avaliações.

Sei que deliberam a meu respeito, mas deixei de aguardar Vosso preconceito há algum tempo. e vivo. Sei que praguejam meu respeito, mas insto na dignidade e coerência inumanas. Sei que decidem seus destinos de forma a afetar o meu, sei que determinam ações a forçar minhas reações.

Meu peito espremido e pesaroso com meus percalços tenta compreender as motivações do coração. Meu peito espremido e descontente segue abalado sem se importar com sua fama. Meu peito ilustrado e repetitivo amarga as iguais desilusões e inflexões da vida. Repito o memso ciclo há milênios, esperando vagarosamente a evolução e a libertação.

Retiro das minhas mãos as consequências de seus atos, e os frutos de suas escolhas e te solto no ar. Respiro a liberdade de te assistir no que me permitir. Retiro de seus olhos as lágrimas escorridas, enxugo-as com amor. Permito-te as opiniões e deliberações. Permito-te uma fama e honra. Permito-te viver as ilusões que escolher. Sei que decidem teu destino de forma a influenciar o meu.

domingo, 6 de dezembro de 2015

A espera



Os anéis apertam os dedos, apertam o sangue, que chega apertado ao coração. Os anéis tintilam nos dedos, arranham as unhas, afogam a pele num suor de ansiedade. Os anéis estimulam e intermedeiam os impulsos cerebrais no sangue. Os anéis deduram o medo, os desejos e os pensamentos.
Os dedos arranhados e enforcados tamborilam entoando hinos e rimas, entoam angústias em ritmo quarteto, entoam a impaciência da espera, do aguardar de uma resposta importante, entoam o sobressalto de um toque do celular. Os dedos apertados se esticam e se comprimem alcançando  
As mãos inchadas de líquidos retidos, de dores comprimidas e lágrimas engolidas, não podem fechar os dedos, deixando de agarrar as menores esperanças, vendo-as esvair-se pelos vãos. As mãos inchadas, comprimidas e espalmadas se sobrepõem ao coração, tentando arrancar o aperto da pressão sanguínea. As mãos inchadas, cheias de anéis apertando dedos arranhados, massageiam o coração ansioso e nervoso.
O coração apertado e pressionado pelo sangue aguarda uma resposta importante, angustiado e arranhado, ansioso por um toque no celular.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Poetando a mente


Quem quer poesia? Quem poeta o marasmo e a euforia. Quem poeta a vida em sintonia ao encanto. Quem poeta a simpatia, entretanto; Entre tantas belezas e algozes, belezas velozes que se arriscam a manchar de sorriso um rosto cansado. São eles que querem a poesia.

A poesia é necessária ao corado da face, ao vermelho da boca feminina, à firmeza do enlace, e à fatalidade da estricnina. A poesia preenche os vácuos do espaço sideral, e a poesia esvazia as angústias da alma.

O poetar é luxo, é consumo impróprio em qualquer idade, é absurdo cósmico, é conexão com a eternidade. O poeta é ser etéreo, é estar em eterna sublimação, evaporando aos poucos sem liquidar a sua razão. O poeta absorve o mundo como uma esponja, e quando seu coração se aperta, libera o líquido amniótico da poesia.

Quem quer poesia? Qualquer um.

sábado, 12 de setembro de 2015

Saudades de uma Belinha


Meu coração repartido, dividido e ludibriado está descascado hoje. Meu coração despedaçado e picado arde intensamente. Meu coração está clichê, e sente saudades por antecipação, meu coração ama você, e insta em negar nossa separação.

Meu coração aspirou ilusão em querer você por uma vida; A ilusão o tomou, porque permiti, e esmigalhou meu coração em cacos incontáveis, inseparáveis e incoláveis. Meu coração iludido te viu partir, sem qualquer sorriso. Meu coração iludido te pediu para ficar, sem sucesso. Meu coração tinha esperança. Minhas esperanças racharam e deixaram que você vazasse por entre meus dedos, em meio a meus braços.

Minhas esperanças se juntaram aos cacos do coração e não se encaixam mais, seguem costuradas de forma chula com barbantes rústicos. Minhas esperanças costuradas, remendadas e frágeis não esperam mais. Não me esperem mais.


Meus cacos entristecidos, desiludidos e descascados não querem se juntar hoje, repelem-se e preferem restar partidos. Meus cacos emudecidos e repelidos choram oram. Meus cacos doem. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A Escultura

Estou em processo de criação, recreação e mineração. Cavo minhas pálpebras buscando os sonhos que já esqueci. Cavo meus olhos buscando os horizontes nos quais me perdi. Cavo com minhas mãos a terra que já me engoliu. Meu processo de ressureição, desenterrou-me das pedras e pôs me deitada em levitação.

E assim, flutuando, sou dirigida para os ventos do norte, teleguiada por satélite, teletransportada pela internet, meus pés flutuando e desenhando meu destino. Estou em processo de aperfeiçoamento, sofrimento e assoreamento. Arenosa, me acumulo nos vãos das lágrimas de meus olhos, e os impeço de transbordar, e os seco, e os vitrifico de uma vez.

E como numa ampulheta, deságuo na boca, secando as palavras e dissecando os dizeres e absorvendo sentidos. Esculturo estátuas e antíteses, esculpo meu próprio estatuto e disformo o estuário; uníssona sou conformada, contornada e consolada. Meu desenho de mim ganha alma, e permaneço.