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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A Escultura

Estou em processo de criação, recreação e mineração. Cavo minhas pálpebras buscando os sonhos que já esqueci. Cavo meus olhos buscando os horizontes nos quais me perdi. Cavo com minhas mãos a terra que já me engoliu. Meu processo de ressureição, desenterrou-me das pedras e pôs me deitada em levitação.

E assim, flutuando, sou dirigida para os ventos do norte, teleguiada por satélite, teletransportada pela internet, meus pés flutuando e desenhando meu destino. Estou em processo de aperfeiçoamento, sofrimento e assoreamento. Arenosa, me acumulo nos vãos das lágrimas de meus olhos, e os impeço de transbordar, e os seco, e os vitrifico de uma vez.

E como numa ampulheta, deságuo na boca, secando as palavras e dissecando os dizeres e absorvendo sentidos. Esculturo estátuas e antíteses, esculpo meu próprio estatuto e disformo o estuário; uníssona sou conformada, contornada e consolada. Meu desenho de mim ganha alma, e permaneço.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

Instinto

Seu instinto me intriga, mas me instiga a lhe amar intrinsecamente na mesma moeda com que me incita a memorizar tua mão, tua pele, teu toque, teu todo tudo.  excitação e expiação, no mesmo lado da cama, na mesma inspiração e respiração.

O meu instinto espira pelos meus poros e te respiram em suas entranhas, mas minha mente te expira o sono, espia seu sono e extingue os tormentos do futuro impróssimo.

Instintivamente insistimos na incisão das lembranças, e na inserção de novas recordações, exposições, explorações e exortações no coração dos ingênuos amantes, nossos.


Meu instinto cria vida, e dá valor a tal, por isso eu insto: te amo. 

domingo, 19 de abril de 2015

Sentidos



Roubou minha retina e levou a lucidez dos meus olhos em sua bagagem. Enxergo embaçado até seu retorno. Meu olhar perdido e desligado te procura sem sucesso, as paredes já não escutam sua voz respondendo à minha.  Meus olhos destilados e roubados dilatam as pupilas e absorvem mais do ambiente, rastreando seus traços, seus cheiros, seus passos.


Minha visão periférica abalroa os demais sentidos e toma de assalto o meu coração, que apenas enxerga seus rastros pela casa, pelas trilhas e por todo o tempo. Suas marcas indeléveis  lançadas pelos ares são irresistíveis e me magnetizam. Sinto sua falta. 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Campo de Concentração

Como uma gaita de fole minha mente expele suas entranhas aos olhos em forma de chamas, gás venenoso e inflamável de minhas estranhas, gás perdido e inimigo de minhas entrâncias, gás dissolvido nas estâncias do corpo.

Minha mente raivosa como uma gaivota plaina um oceano de conjurações e conjugações. E se fosse o verbo conjugado no presente, poderia talvez conjugá-lo de forma diversa no futuro do pretérito; Se eu dispuser da conjugação do verbo da minha vida desta forma, como se tivesse havido demais escolhas melhores no pretérito perfeito, o arrependimento será outro?

Verbos e verbetes, escolhas e decisões, atos e consequências. Meus olhos embaçados pelo gás envenenado da minha mente rege seu império, defende seu ponto de vista, e cautelosamente escolhe as pedras que pisará em seu caminho. Meus lábios emudecidos aceitam as resoluções e portarias oculares são questionar...

Meu pulso sobressaltado acelera e anseia o rumo, preparando-se para a caminhada árdua. Meu pulso é lembrado ritmicamente de suas responsabilidades, habilidades, capacidades e fragilidades, meu pulso acelera com o aumento da pressão.

Como um saxofone minha mente swinga soluções e partituras, minha mente é musicada e concentrada, várias em uma só.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Invenção da poesia


Dos meus dedos correm tramas, dramas relatados sem emoção. Dos meus lábios saem palavras cruzadas, histórias atrasadas e de repetição, além de estórias da carochinha, contos de fadas e bruxas, dentre outras invenções. Dos meus dedos correm mares inteiros, navios negreiros, navios obreiros.
Dos meus dedos corre a criação do mundo, da realidade mais profunda.

Os meus olhos leem os rabiscos, leem os hieróglifos, e os apócrifos. Meus olhos leem tatuagens, expressões faciais e risos infantis, interpretam a trama, criam o drama e o enchem de enredo e presunções, meu coração palpita, angustia e anseia pelo final. Meus olhos preenchem as lacunas cruzadas de histórias repetidas de pessoas históricas cruzando um mar inglês.

Os meus olhos veem o mar levando embora milhares de sonhos e pesadelos ao fundo, os meus olhos veem as histórias mudando, se desenrolando e alterando o fim. O mote é complexo, os personagens sobressaem, desejam e traem, feito Eva e Adão.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Ferreiro


Coração martelado feito soldado, espremido como laranja, pronto para tomar. Sem conservantes, e disposto em muita brasa, queima queima queima.

Coração embrasado, fumegado e derretido é malhado, enformado e deformado. Coração requentado, assim desentortado, assim fora forjado.

 Coração na bigorna, explodindo em faíscas, clama por Hefesto teu soldador. Coração explosivo, coração invasivo, invadido.

 Coração vermelho, pulsante e derretido, coração doído e derramado, coração coagido e devotado a ti. Coração devorado, mastigado e digerido pelo próprio coração.

Tal qual desenho, o coração se apaixonou pelo ferreiro.

O coração queimado e resfriado pelo Ferreiro, pulsa pulsa pulsa. 

domingo, 21 de setembro de 2014

Linha da Vida


Talho meus dedos numa peça de madeira comum. Meus dedos nascidos da normalidade esculpidos dolorosamente por histórias, minhas estórias. Meus dedos, com unhas de grafite, escritos por experiências, cujas ranhuras denunciam a idade das amarguras que vivi. 

Minhas mãos delineadoras do futuro escrevem minhas vidências. Minhas mãos são esculturas, são a arte moderna dos meus pressentimentos, são feitas pelos teus pensamentos misturados ao meu imaginário. Minhas mãos pegam na gravura das tuas, e te deixam perto de mim.

Minha mão pega o cinzel e delicadamente desenha minhas digitais, prevendo as frutas que tocarei, os vidros que me cortarão, as lágrimas que enxugarei. Então minha mão usa o cinzel e descreve minhas cicatrizes, contorna os amores e as conquistas, arranca lascas de pele encorpadas de decepções.


Meus dedos quase prontos são observados pela criadora, e são finalmente aprovados. Chega de decidir sobre o destino, chega de criar escolhas, chega de desenhar dedos. 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Quadro impressionista


Pintei uma paisagem em sua volta, e lá desenhei tudo que eu desejei, um sol pro seu coração, uma grama fofa como as nuvens que piso, algumas árvores para nos deitar na sombra, uma placa indicando uma cachoeira à direita, e a Casa à esquerda, e o nosso cachorro. 

Mas faltava cor em meu quadro, pois minha aquarela estava ressecada demais para ser usada assim, dissecada demais para ser exposta assim, obcecada demais para aceitar ser utilizada assim, seca demais para ser .

Mas você então veio, perfeito da minha perspectiva aérea desenhado cuidadosamente, e a saliva dos teus beijos me permitiram novamente reavivar meu painel de humores, minhas cores e minha vida. Mas você então veio, bamboleando pelo trajeto de tijolos amarelos da minha paisagem, tomando meus pincéis das mãos e escolhendo as cores comigo. Mas você então veio, com seu sorriso amador dos meus traços, com sua técnica amante de preenchimento, tomando os tons do meu coração e levando a minha alma ao quadro. 


Termino minha bela obra de arte em poucos dias, e terminaremos a arte de obrar em alguns anos. La Gioconda!

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Pingado

O meu amor pingou,
No teu café,
Aroma do meu suor
 
Eu me faço de leite, esperando ser pingado contigo, embebida aos goles pela sua língua, e saboreada com todo teu prazer pelas suas papilas. Degustada, devorada e deglutida, passo pelo seu sistema digestivo e sou absorvida em escalas no teu corpo. E desta forma, torno-me sua: torno-me a cafeína ligada em seus pensamentos, torno-me o açúcar, torno-me a gordura. Até o momento em que completamente mastigada, reinicio o ciclo.
 
No teu café,
Fiz risos e vapor
Perfumei.
 
O calor da minha fervura e o sabor integral do meu leite combinam com seu aroma arábico. Seu sabor marca a minha boca e lava meus dentes, aguçando meus sentidos, para desejar mais e mais goles da tua poção. Seu café é irresistível, e minha gula, inexorável. Exalo seu perfume no ambiente, e estimo seu gosto no meu gosto. 
Je t'adore. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A garrafa

Meu coração foi engarrafado, socado dentro de um vidro de cerveja. Meu coração virou conteúdo de um continente sujo e alcoolizado. Preso pelo recipiente, meu coração dá tímidas batidas pedindo indulto, meu coração dá tímidos gritos pedindo socorro, meu coração dá tímidas lágrimas prendendo o choro. Minha garrafa de cerveja preta não agradou.


Meu coração foi adormentado em meio ao resto preto da garrafa, mas depois ele acordará e se conformará. E meu coração virou drink!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A língua do P

Meu peito apertado espreme minhas artérias.
E minhas artérias exprimem a dor que corre em meu sangue.
Pura expressão da confusão de pensamentos que me subtraem.
E diminuída de sanidade, reduzida ao fardo, sofro.
Sofrimento espremido, exprimido, extirpado e subtraído.

Se da transfusão do sangue que doei nada restou,
Se da minha pressão arterial multiplicam-se as tensões
Se da minha testa pesam todos
Se do caixote em que caibo sufocada não me abrem.

Por hoje sem alívio,

Apenas o sono dos injustos. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Cri(ativa)


Minha cria deriva de teu nome, minha criação é fruto do teu toque, tenho minha criatividade para te tecer.  Meu amor é uma malha que aquece o ar dos meus pulmões, para te enviar meu calor por meio das nossas bocas. Minha língua faz túnel até a tua, e te eleva ao meu céu.

Eu sou vestida pelo teu corpo,
emaranhado de pelos
e apelos.

Meus cabelos se misturam ao ar. E por meio de minhas provocações, minas insinuações, eu minero teu coração, lavro meu arquipélago de sistema cardíaco e lavo teus pés. Lavo tuas mãos em meu elixir da vida. Lavo teus pés. Lavo teu rosto com minha saliva. Ó meu amor, já era meu tesouro antes mesmo que te cavasse da terra, antes mesmo que soubesse.

E toda sonhadora, eu empino uma pipa, eu empino meus sonhos, eu empino teu rosto... e beijo teu pescoço. E assim, colados em suor, bailamos pelo salão, permito-me seguir teus passos, e me é permitido apoiar teus braços em meus ombros, e nos permitimos amar. Minha mente ativa, cria sonhos e perspectivas, imaginação e transpiração.

Crio ativamente
Sonhos e falas
Minha mente
Ativa, fálica e
Minha ação
Se imaginam contigo sempre
E te querem, e te tateiam e...

E de ação imaginária, e de sonhos criados, e de desejos expostos; eu te elejo minha inspiração.